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domingo, 18 de setembro de 2011

NAIPES E PROMESSAS



Havia jurado amor eterno, quando anos depois o imprevisto nos surpreendeu. Tive que aceitar o infortúnio, pois a vida prossegue para os que ainda estão sob esse manto. Entretanto e apesar do passar das horas, permiti-me uma confissão em juramento. Jamais a esqueceria e isso incluía sua fisionomia. Burlaria meu próprio ser caso fosse necessário para manter meu pensamento concentrado em firme propósito.

Ano após ano, recordava-me de datas especiais e as comemorava juntamente com quem ainda se mantinha fiel à memória dela. Reuníamos sempre na casa de seus ancestrais e conversávamos: modo que nos fazia muito bem.

No ano de 1974, data de sete anos do incidente éramos um grupo com 49 pessoas e decidimo-nos pelo salão nobre. Já havíamos estado antes no local, mas não com tanta precisão de detalhes. Ali, aproximei-me mais de Walknut, irmão de minha amada. Antes tínhamos certas antipatias, que aos poucos se tornou em singularidades pelo amor que nutríamos em comum.

Em secreto, numa de nossas conversas  íntimas, declarou-me algo que lhe acontecera. Deveria, pois, guardá-lo visto que o fato já o intrigava por demais a ponto de ter que contá-lo a alguém.

Havia descoberto uma passagem que misteriosamente conduzia a um porão. O lugar era extremamente pequeno, somente com espaço suficiente para quatro pessoas deitadas, aproximadamente. Numa das paredes, oposta a que tinha um catre, um quadro com os naipes e ao fundo um triângulo subdividindo a tela com quatro quadrados cada qual com um naipe. Em volta, um círculo envolvia a tela e este era giratório.

Pelo que parecia, propunha o desvendar de um enigma, afinal, o catre não estaria em frente ao quadro como convite a sentar e observar à toa. Walknut  já havia passado tempo demais ali para conseguir a apreensão de algum conceito em resposta, confessava para mim seu cansaço em obter solução àquilo aparentemente sem sentido.

Curioso estava só de ouvir, ainda mais curioso fiquei para ir ao local. Algo daquele mistério poderia trazer uma paz para as ansiedades que me consumiam. Combinamos que faríamos isso à noite. Horas mais calmas e tranqüilas.

Havia todo um ritual para se chegar ao porão, e Walknut não sabia explicar os reais motivos de tanto segredo. Isso o inquietava. Minha busca era outra. Era um consolo para a perda, um alento e um entendimento para a vida.

Acomodei-me no catre enquanto Walk ficou em pé. Colocamos a roda para girar. Em segundos, fui tomado por uma insegurança, o chão parecia tremer e tudo ao redor transfigurar... Um forte vento não me deixava manter os olhos abertos enquanto somente percebia os naipes se fundirem num só e tudo ser somente um círculo giratório como eu parecia também diluir-me nesse giro insano.

Vi cenas de toda a minha vida, uma a uma se formava e também passava dando espaço para a outra e mais outra e assim sucessivamente. Eu era a própria vida passando. Era parte Alfa e chegaria ao ômega caso continuasse persistindo na louca roda. Meu medo foi maior e quando vi-me sem chão por completo em meio ao furacão, implorei a algum ser divino para que tudo passasse pois aquilo já me bastava como compreensão.

Fui jogado no catre e me sentia como um velho com mais de cem. Walk permanecia calmo. Depois, soube que para ele não havia acontecido nada do que eu tinha sentido. Eu apenas passei por um transe e parado fixamente não me movia nem para piscar.

Aquela foi a sensação mais inusitada e reveladora de meu ser e do quanto há para me modificar até alcançar camadas mais elevadas de conhecimento. No jogo da vida, nada temos de concreto. É na abstração que fomos feitos. Da mesma forma que procurei com o tempo esquecer o ocorrido sinto-me esvaindo nos velhos propósitos entre juras e fisionomias. “Não mais me sou, não mais me sei.”

Andreia Cunha












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