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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DEPRESSÃO E LUCIDEZ



"Viver me deixa tão impressionada, 
viver me tira o sono."
Clarice Lispector
DEPRESSÃO E LUCIDEZ

Várias foram as vezes que vi os termos acima colocados em oposição ou em condição de escolha. Não os vejo em posições contraditórias, mas sim complementares. Penso que à medida que me torno mais lúcido (a) de concepções que trazem à luz do conhecimento, mais possível a aproximação com a depressão. 

O saber em si traz uma dor para o corpo e para a mente. Não se pode adquirir sabedoria sem carregar consigo um tanto de tristeza por ver tantas injustiças e ignorâncias disseminadas como fontes de verdades absolutas para a grande maioria sem acesso ao conhecimento.

Quando me refiro ao saber, não o coloco no patamar somente dos bancos escolares na busca de uma profissão. Coloco-o principalmente como meio de qualquer ser humano atingir um elevado nível espiritual que o transforme em um ser melhor para o mundo na qual vivemos.

A profundidade do tema é tão ampla que recobre sistemas políticos, econômicos, sociais, filosóficos, científicos e basicamente educacionais dentre outros. Falta-nos essencialmente muito para alcançarmos uma condição de sabedores de algo. Creio que somos as formigas rodeando o prato sem possibilidade de alcançar as funduras do objeto porque patinaríamos sem saber exatamente como lidar com tanta verdade expressa pelo excesso do mel.

Lembro-me agora de um texto de Bertrand Russel na qual declara as três paixões que movimentaram sua vida: o amor, o conhecimento e a compaixão. Enquanto os primeiros o levaram por caminhos mais felizes – o amor transfigurado em afeto como luz para a solidão que por vezes todos sentimos, ou o arrebatamento e êxtase de adolescente apaixonado até as decepções fatais e mestras de grandes lições, à busca do conhecimento como modo de se colocar perante o mundo e entender o que antes julgávamos inacessível, embora muitas perguntas permaneçam em aberto,ele diz que foi sempre a compaixão que o trouxe à realidade nua e crua das diferenças que até hoje vivenciamos separando os que podem (ou tem) dos que não podem (ou nada tem).

Mesmo que tenhamos acesso a tantas informações e conhecimentos, perceber que muito da compaixão falta para que outros tantos tenham condições de sobrevivência é um choque que nos traz a lucidez e conseqüentemente a depressão de ver tanta injustiça sendo pregada com tantos disparates e sem a menor responsabilidade de transformação social.

Eis aí um motivo pela qual a lucidez traz consigo a condição de aprofundar o pensamento e principalmente perceber como nossa ínfima situação ainda nos põe mais próximos dos seres rastejantes do que propriamente de criaturas racionais.

Andreia Cunha














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