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quinta-feira, 9 de junho de 2011

ESPELEOLOGIA E ESPELHOS DO EU


Eu X Mim


Assustador e fascinante. Assim, posso definir a entrada em uma caverna. O mundo exterior de sons, luzes e cores vai ficando para trás à medida que se explora um mundo novo.

Por isso, tão assustador. A luz, aos poucos, vai sumindo enquanto se adentra pelas rochas em descidas circulares e labirínticas. Por vezes, andar não basta. Tem que se rastejar grudado ao pó para passar para outra camada de pedra. Na maioria das vezes, o som das águas indica uma nascente: objetivo maior da aventura. A umidade aumenta e seres desconhecidos se revelam... Eu sou um deles. Goteiras mostram que a água é paciente em relação à dureza da pedra. Quer queira quer não, ela um dia conseguirá seu intento:

abrir caminhos de onde, à primeira vista, não se podia. Verdadeiras obras de arte esculpidas na sabedoria de quem sabe o que quer não importa o tempo que isso dure.
Minha sombra à luz da lanterna toma contornos gigantescos. Estou tão disforme quanto o ambiente em que me encontro.

A lanterna só alcança uns poucos metros. Sou grão no meio da imensidão rochosa e úmida. O corpo esfria do que antes era sua temperatura habitual na superfície exterior.

O ambiente agora é mais umi-sereno. Há um silêncio que assusta juntamente com as vozes do eu interior. Eu já não sou. E essa insegurança deixa qualquer um inebriado.

Lá fora? Não sei se é ainda dia ou se já é noite. Perde-se a noção de tempo cronológico. Desespero e vontade. Um misto de sensações que fazem o ser titubear entre ir e desistir.

Sair ou cair. É o fogo de uma paixão interna em contraposição ao desejo de banhar-se nas águas batismais da nascente pura e intocada pela poluição. Conforme o som se modifica, meus ouvidos tentam se ajustar ao silêncio profundo e seguir o curso da água. Não há guias. Por isso, tenho de ser por mim.

Como acertarei a saída? A própria experiência terá de ser minha aliada. Ou aprendo agora ou me perco de vez nessa profundidade rochosa. Essa é a fatal experiência de ser sempre um ser novo e complexo para as novidades na eterna lei do esquecimento primordial. Sou hoje. Fui outro ontem e serei o que amanhã? Não sei. Não sabemos.

 Vivemos essa metamorfose. Por isso, o dever de aprender para poder sair renovado. Essa sensação é a que me faz viver feliz, com vontade de ousar e sentir minha própria mão me guiando nas saídas. Descer cavernas e sair delas é minha profissão de fé e amor. Aquela que apesar de não me sustentar, me é tão essencial quanto acordar no dia seguinte. Vivo porque
desço cavernas. Vivo porque elas existem e me desafiam em seu silêncio de vozes e que mesmo assim, me falam mais do que mil palavras humanas em sua complexidade de fonemas.

Sou um espeleológo de alma e intuição à flor da pele tentando desvendar os espelhos desse eu que me habita.

Andreia Cunha

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